Sugestões Interessantes (Dr. Pedro Molck)
Trecho de carta do Dr. Pedro Molck a este blog (o original se encontra no “Lei Mais”, no posto “Acordo em desacordo”:
“…Com o perdão da citação pelo recurso à memória, lembro-me de que, anos atrás, professores do RS, se não me engano, apresentaram estudo para reforma ortográfica da língua portuguesa que espelhasse escrita que facilitasse sua grafia, da maneira o quanto mais uniforme fosse possível. O principal objetivo seria a padronização. (…)
Seria uma reforma fonética? Não sei. Mas eis as sugestões apresentadas pelos professores:
-cairia a regra de que palavras em que o s entre vogais teria som de z. Palavras como Asa, asarão, Brasília, base, paralisar, avisar, música, meses, deuses, pegajoso etc., seriam escritas com z: aza, azarão, tranzoceânico, Brazília, baze, paralizar, avizar, múzica, muzeu, mezes, deuzes, pegajozo etc., a exemplo de azeite, fazer, azedo, azul, produzir, trazer etc., que já são escritas com z; Ademais, atualmente existem palavras em que o s, mesmo não se encontrando entre vogais, têm o som de z: transatlântico, transeunte, trânsito, transoceânico, transumano etc.;
- da mesma forma, palavras escritas com x com som de z — êxito, exigente, exame, executar, existir, hesitar etc. — também seriam escritas com z: êzito, ezigente, ezame, ezecutar, ezistir, hesitar etc.;
- o ç (c cedilhado) seria extinto: assim, em lugar de açúcar, pescoço, moço etc. teríamos, então, asúcar, pescoso, moso etc. Não haveria necessidade de dobrar-se o s, a exemplo da língua espanhola;
- a consoante c teria sempre o valor da consoante k, no começo, meio ou fim de palavras; exemplos: cachorro, capital, Corumbá, pacote, toco etc. Em todas as palavras em que o c tiver o som de s, como em Ceará, cebola, cimento, ciúme, acima, Juraci etc., seria substituído por s.
Teríamos, então, Seará, sebola, simento, siúme, asima, Jurasi, casino, baso, paseio, asim, impresora etc., a exemplo de Sergipe, sapo, São Paulo etc. A ortografia já registra palavras com consoante muda, como b, c, d, g, p etc.: abdicar, absolver, acne, advogado, agnóstico, pneu etc. e, por analogia e extensão, palavras escritas com x com som de cs, como fixo, prolixo, ortodoxo etc., seriam escritas com c + s: ficso, prolicso, ortodocso etc.;
- palavras escritas com g, no começo, meio ou fim de palavras, teriam sempre o som de gue (sem pronunciar-se a vogal u, como em guerra, por exemplo). Apenas para lembrar, na ortografia atual o g já se pronuncia como gue antes das vogais a, o e u, como em gato, goiaba, Gurupi etc. A dúvida sempre recai antes das vogais e e i, onde a pronúncia soa sempre como se a palavra estivesse escrita com a consoante j. Os exemplos são infindáveis: Getúlio, gema, gente, girafa, ginástica etc. Teríamos, então, Jetúlio, jema, jente, jirafa, jinástica etc.:
- palavras escritas com z com som de s — juiz, imperatriz, matriz, extinto etc. — seriam escritas com s: juís (plural juízes), imperatris, matris, estinto etc., a exemplo de Luís, Taís, país, buritis etc.;
- palavras terminadas em am — tinham, tiveram, haviam, houveram, eram, foram, estavam, estiveram, falaram, disseram, caminhavam, fizeram, leram, aconteceram, ocorreram, possuiram etc., com som de ão (na verdade ãum), a exemplo de sótão, órgão, Estêvão, Cristóvão etc., seriam todas escritas com ãum e acento agudo ou circunflexo: ezecutárãum, tínhãum, tivérãum, havíãum, houvérãum, érãum, fôrãum, estávãum, estivérãum, falárãum, disérãum, caminhávãum, fizérãum, lêrãum, acontesêrãum, ocorrêrãum, posuírãum, partírãum etc. Da mesma forma teríamos, cãum, dãum, mãum, pãum, sãum, tãum etc.:
- palavras terminadas em em — bem, cem, armazém etc. — com som de eim seriam escritas com final eim: beim, seim, armazeim, tambeim etc. , todas sem acento;
- palavras que contivessem ch com som de x seriam todas grafadas com x. Teríamos, assim, xapéu, xato, xave, axar etc.
Não me lembro das outras sugestões.
No prinsípio as mudansas poderíãum trazer algum embaraso, ezitaçãum, dúvida ou confuzão no momento de escrever, uma vez que efeitos colaterais sempre poderíãum ocorrer. Mas, de qualquer forma, lembro-me de que, das diversas vantajens apregoadas pelos defensores das mudansas, sobresaíãum a padronizasãum da maneira como as palavras devem ser escritas, desprezados os rejionalismos, radicais, suficsos e até a etimologia sofreria corresões.
Alguém já disse: “… Acho que o mais importante é a preocupação em atualizar a ortografia e unificá-la. …”
Concordo, mas pondero que será bastante difícil a unificação da maneira como preconizada.
Em questões de ortografia, é falso que Portugal tenha uma história de cedências ao Brasil. O contrário é que é verdadeiro. O Brasil sempre estará a reboque dos demais países da língua portuguesa, que nem sempre adotam a mesma ortografia usada no Brasil.
Outro exemplo. A leitura deste artigo também traz muitas informações.
Vários países fizeram reformas até radicais em suas ortografias, incluindo China e Japão.
Tive meus primeiros percalços com a língua com a reforma ortográfica de 1943.
De incomensurável auxílio me foi o Pequeno Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa, de Hildebrando Lima e Gustavo Barroso, de cujo desdobramento saiu o Aurélio, em 1975.
Já passou da hora de que se faça uma reforma para valer e ousaria acrescentar que não me parece suficiente que os integrantes da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa adotem apenas uma única ortografia, mas também que esforços sejam feitos para padronizá-la, simplificá-la e torná-la com regras mais abrangentes e menos suscetível a eternas exceções. …”