Acordo traz dúvida e confusão
Como escrever corretamente a palavra plateia (ou seria platéia)? O correto é madrepérola ou madre-pérola? Estas dúvidas fazem parte do cotidiano brasileiro desde o fim do ano passado, quando o governo editou um decreto promulgando o Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, que demorou quase 30 anos para ficar pronto. Para uns, algo de fundamental importância para união dos países que têm o português como idioma. Para outros, uma regra que mais atrapalha do que ajuda.
O acordo nasceu com o objetivo de unificar a escrita dos países de língua portuguesa, mas tem provocado, pelo menos no Brasil, divergências entre especialistas e a população.O uso ou não do hífen e a retirada do acento agudo em palavras paroxítonas são exemplos das mudanças que estão confundindo a cabeça do brasileiro.
Nas ruas, nas escolas e nas universidades o tema continua provocando polêmica. Com mais de 40 anos dedicados ao estudo e ao ensino da língua portuguesa, o professor Ernani Pimentel reconhece a importância de se unificar a escrita do português, mas critica a maneira como as novas regras foram concebidas.
“Não queremos ser do contra. A reforma tem suas vantagens porque conseguiu unir oito países em um acordo a respeito da língua. Isso é um passo gigantesco. Porém, trinta anos para se fazer o acordo é muito tempo. Hoje, a situação é diferente e podemos levantar problemas e dar soluções de maneira muito mais rápida”, comenta Pimentel.
Na avaliação do professor, a reforma ortográfica é superficial. Apesar de tentar facilitar as regras da escrita, acaba causando confusões, porque deixa várias palavras fora da norma padrão. “Ela tenta simplificar normas, mas, ao mesmo tempo, cria várias exceções, a pretexto da consagração da escrita. Isso é incoerente com a ideia da reforma, pois todas as palavras alteradas já estavam consagradas também. Então, é preciso eliminar as exceções.”
Pimentel destaca também a falta de padronização dos radicais e cita, como exemplo, as palavras que derivam do termo “extendere” (latim). Segundo ele, das 26 derivações, 13 são escritas com “s” e 13 com “x”. Para o professor, faltou uma lógica no momento de fazer as regras do novo acordo.
O que muitos não conseguem entender é porque, com quase 30 anos de estudos para sua elaboração, o acordo contenha pontos tão conflitantes. Na opinião do professor, faltou mesmo foi conhecimento por parte daqueles que elaboraram as novas regras. “O grande problema é que nenhum dos oito países tem um estudo completo sobre a etimologia das nossas palavras. Eles fizeram um acordo sem conhecer a matéria”, assinalou Pimentel.
O especialista acha que, em razão da forma como o acordo foi proposto, as pessoas nunca saberão escrever corretamente. “Precisamos criar padrões racionais para que todo mundo possa saber escrever. Temos que simplificar as regras para acabar com a escravidão do dicionário. O tempo hoje é caro e não dá para a gente ficar o resto da vida abrindo dicionário para aprender a escrever”, defende.
Com base nessa preocupação, Pimentel lançou um manifesto na internet para tentar sensibilizar as autoridades sobre a questão. “O que a gente quer é que as pessoas entendam essa dificuldade, entrem no site do manifesto (www.acordarmelhor.com.br) e assinem para termos força e tentarmos fazer com as autoridades pensem de maneira democrática, já que o acordo foi feito de costas para quem tem mais interesse.
Jornal de Brasília
Erick Dias
25 de março de 2009
Achei muito bom esse manifesto porque eu realmente havia percebido várias incoerências nesse acordo. Eu simplesmente não entendi porque fizeram uma nova regra para uso do hífen e deixaram várias exceções. Qual a coerência em se escrever guarda-chuva com hífen e mandachuva sem? O resultado é que continuaremos escravos do dicionário, sem poder usar o bom-senso e a lógica para escrevermos.
Também faltou coerência na derrubada dos acentos que diferenciavam palavras de mesma grafia e significados diferentes. O par pára/para se resumiu à grafia para, enquanto pôr e por continuam diferenciados. Será que essa diferença de tratamento facilita nossa vida? Para que mexer se não for para ajudar? Ao ver a frase “Trabalho para o Brasil”, você não vai saber se o estão pedindo mais emprego para os brasileiros ou se estão reclamando que o trabalho pára o país. É óbvio que, pelo contexto, você geralmente saberá, sim, o querem dizer. Mas ter que observar o contexto para decidir o que o autor quis dizer pode ser chamado de “simplificação”?
Os problemas mais “profundos” foram simplesmente ignorados. Se queriam simplificar, porque manter o contra-senso (também ficou em dúvida se caiu esse hífen?) das grafias de extensão e estender?
É claro que no meio disso tudo tem um pouco de influência das preferências pessoais, do costume com a grafia antiga e de uma resistência natural a mudanças (especialmente no caso de pessoas “mais velhas”). Mas acho que vale a pena debater, pensando sempre em termos uma língua melhor para todos.