Acordo traz dúvida e confusão

março26

Como escrever corretamente a palavra plateia (ou seria platéia)? O correto é madrepérola ou madre-pérola? Estas dúvidas fazem parte do cotidiano brasileiro desde o fim do ano passado, quando o governo editou um decreto promulgando o Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, que demorou quase 30 anos para ficar pronto. Para uns, algo de fundamental importância para união dos países que têm o português como idioma. Para outros, uma regra que mais atrapalha do que ajuda.

O acordo nasceu com o objetivo de unificar a escrita dos países de língua portuguesa, mas tem provocado, pelo menos no Brasil, divergências entre especialistas e a população.O uso ou não do hífen e a retirada do acento agudo em palavras paroxítonas são exemplos das mudanças que estão confundindo a cabeça do brasileiro.

Nas ruas, nas escolas e nas universidades o tema continua provocando polêmica. Com mais de 40 anos dedicados ao estudo e ao ensino da língua portuguesa, o professor Ernani Pimentel reconhece a importância de se unificar a escrita do português, mas critica a maneira como as novas regras foram concebidas.

“Não queremos ser do contra. A reforma tem suas vantagens porque conseguiu unir oito países em um acordo a respeito da língua. Isso é um passo gigantesco. Porém, trinta anos para se fazer o acordo é muito tempo. Hoje, a situação é diferente e podemos levantar problemas e dar soluções de maneira muito mais rápida”, comenta Pimentel.

Na avaliação do professor, a reforma ortográfica é superficial. Apesar de tentar facilitar as regras da escrita, acaba causando confusões, porque deixa várias palavras fora da norma padrão. “Ela tenta simplificar normas, mas, ao mesmo tempo, cria várias exceções, a pretexto da consagração da escrita. Isso é incoerente com a ideia da reforma, pois todas as palavras alteradas já estavam consagradas também. Então, é preciso eliminar as exceções.”

Pimentel destaca também a falta de padronização dos radicais e cita, como exemplo, as palavras que derivam do termo “extendere” (latim). Segundo ele, das 26 derivações, 13 são escritas com “s” e 13 com “x”. Para o professor, faltou uma lógica no momento de fazer as regras do novo acordo.

O que muitos não conseguem entender é porque, com quase 30 anos de estudos para sua elaboração, o acordo contenha pontos tão conflitantes. Na opinião do professor, faltou  mesmo foi conhecimento por parte daqueles que elaboraram as novas regras. “O grande problema é que nenhum dos oito países tem um estudo completo sobre a etimologia das nossas palavras. Eles fizeram um acordo sem conhecer a matéria”, assinalou Pimentel.

O especialista acha que, em razão da forma como o acordo foi proposto, as pessoas nunca saberão escrever corretamente. “Precisamos criar padrões racionais para que todo mundo possa saber escrever. Temos que simplificar as regras para acabar com a escravidão do dicionário. O tempo hoje é caro e não dá para a gente ficar o resto da vida abrindo dicionário para aprender a escrever”, defende.

Com base nessa preocupação, Pimentel lançou um manifesto na internet para tentar sensibilizar as autoridades sobre a questão. “O que a gente quer é que as pessoas entendam essa dificuldade, entrem no site do manifesto (www.acordarmelhor.com.br) e assinem para termos força e tentarmos fazer com as autoridades pensem de maneira democrática, já que o acordo foi feito de costas para quem tem mais interesse.

Jornal de Brasília
Erick Dias
25 de março de 2009

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Uma Opinião para

“Acordo traz dúvida e confusão”

  1. Em 04/04/2009 às 10:39 Dhalton Disse:

    Achei muito bom esse manifesto porque eu realmente havia percebido várias incoerências nesse acordo. Eu simplesmente não entendi porque fizeram uma nova regra para uso do hífen e deixaram várias exceções. Qual a coerência em se escrever guarda-chuva com hífen e mandachuva sem? O resultado é que continuaremos escravos do dicionário, sem poder usar o bom-senso e a lógica para escrevermos.
    Também faltou coerência na derrubada dos acentos que diferenciavam palavras de mesma grafia e significados diferentes. O par pára/para se resumiu à grafia para, enquanto pôr e por continuam diferenciados. Será que essa diferença de tratamento facilita nossa vida? Para que mexer se não for para ajudar? Ao ver a frase “Trabalho para o Brasil”, você não vai saber se o estão pedindo mais emprego para os brasileiros ou se estão reclamando que o trabalho pára o país. É óbvio que, pelo contexto, você geralmente saberá, sim, o querem dizer. Mas ter que observar o contexto para decidir o que o autor quis dizer pode ser chamado de “simplificação”?
    Os problemas mais “profundos” foram simplesmente ignorados. Se queriam simplificar, porque manter o contra-senso (também ficou em dúvida se caiu esse hífen?) das grafias de extensão e estender?
    É claro que no meio disso tudo tem um pouco de influência das preferências pessoais, do costume com a grafia antiga e de uma resistência natural a mudanças (especialmente no caso de pessoas “mais velhas”). Mas acho que vale a pena debater, pensando sempre em termos uma língua melhor para todos.

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